O que é a dermatofitose
A dermatofitose é um grupo de infecções fúngicas superficiais causadas por dermatófitos, fungos com capacidade de invadir e se nutrir da queratina presente na pele, nos pelos e nas unhas. Os principais gêneros envolvidos são Trichophyton, Microsporum e Epidermophyton, com espécies de distribuição variável conforme a região geográfica e o hábito de vida do paciente.
São infecções extremamente comuns no Brasil, favorecidas pelo clima quente e úmido, pelo uso compartilhado de ambientes coletivos como piscinas, academias e vestiários, e por fatores individuais como sudorese excessiva, imunossupressão e uso prolongado de calçados fechados. O diagnóstico correto é fundamental, pois o aspecto clínico pode ser confundido com outras dermatoses, e o tratamento empírico incorreto frequentemente atrasa a resolução.
Formas clínicas
As dermatofitoses recebem nomes específicos conforme a região acometida, todos designados pelo prefixo "tinea" seguido da localização em latim.
Tinea pedis
A tinea pedis, conhecida como pé de atleta, é a dermatofitose mais frequente. Acomete os espaços interdigitais dos pés, a planta e as bordas laterais. Apresenta-se com descamação, fissuras, maceração e prurido nos espaços entre os dedos, podendo evoluir para bolhas e erosões nas formas mais inflamatórias. É porta de entrada para infecções bacterianas secundárias, especialmente erisipela e celulite.
Tinea unguium (onicomicose por dermatófito)
A onicomicose é a infecção fúngica das unhas, mais comum nas unhas dos pés. Manifesta-se com espessamento, descoloração (amarelada, esbranquiçada ou marrom), friabilidade e descolamento da lâmina ungueal. A progressão é lenta e a resolução espontânea é rara. Frequentemente coexiste com a tinea pedis, que pode ser o reservatório do fungo.
Tinea corporis
A tinea corporis acomete a pele do tronco, membros e face, com exceção do couro cabeludo, da virilha e dos pés. As lesões típicas são placas eritematosas anulares, com bordas ativas descamativas e tendência à cura central, formando o aspecto em anel característico popularmente chamado de impigem. O prurido é frequente.
Tinea cruris
A tinea cruris afeta a região inguinal, face interna das coxas e períneo. É mais comum em homens. Manifesta-se com placa eritematosa de borda ativa, descamativa e pruriginosa, que se expande para as coxas mas habitualmente poupa o escroto. Favorecida pelo calor, suor e atrito local.
Tinea capitis
A tinea capitis é a dermatofitose do couro cabeludo, predominante em crianças. Pode causar desde placas alopécicas descamativas até formas inflamatórias intensas, como o querion de Celso, abscesso fúngico que pode resultar em cicatriz e alopecia permanente se não tratado adequadamente.
Tinea manuum e tinea faciei
A tinea manuum acomete as mãos, frequentemente associada à tinea pedis. A tinea faciei afeta a face, podendo ter aspecto atípico e ser confundida com dermatite, rosácea ou lúpus, especialmente quando há uso prévio de corticoide tópico que modifica a apresentação clínica (tinea incógnita).
Diagnóstico
O diagnóstico é clínico na maioria dos casos, baseado no aspecto e na distribuição das lesões. O exame micológico direto com hidróxido de potássio (KOH) confirma a presença de hifas e é um recurso rápido e útil para casos com dúvida diagnóstica. A cultura fúngica identifica o agente com precisão, mas tem crescimento lento e é reservada para situações específicas, como a tinea capitis ou casos refratários.
A dermatoscopia pode ser utilizada para avaliar a estrutura das lesões e, nas onicomicoses, ajuda a distinguir a infecção fúngica de outros distúrbios ungueais como psoríase e trauma. O diagnóstico correto antes de iniciar o tratamento evita o uso empírico de antifúngicos em situações que não são micoses, prática que atrasa o diagnóstico adequado e contribui para resistência fúngica.
Tratamento
A escolha entre tratamento tópico e sistêmico depende da localização, da extensão e do tipo de dermatofitose.
Tratamento tópico
As dermatofitoses da pele glabra (tinea corporis, cruris, pedis e faciei) respondem bem ao tratamento tópico com antifúngicos como terbinafina, clotrimazol, miconazol e ciclopirox, aplicados por período suficiente para erradicar o fungo. O uso deve se estender por pelo menos uma semana além da resolução clínica das lesões, evitando recidivas precoces. A descontinuação prematura por melhora da aparência sem completar o ciclo é uma das causas mais frequentes de recorrência.
Tratamento sistêmico
O tratamento sistêmico é indicado nas onicomicoses, na tinea capitis (que exige antifúngico oral), nas formas extensas e nas recorrências frequentes. A terbinafina oral é o antifúngico de referência para onicomicose por dermatófito, com taxas de cura superiores aos demais agentes e perfil de segurança bem estabelecido. O itraconazol é alternativa válida, especialmente em pulsoterapia. O tempo de tratamento para onicomicose é prolongado, podendo variar de três a seis meses para unhas das mãos e de seis a doze meses para unhas dos pés, acompanhando o crescimento da lâmina ungueal saudável.
Laser na onicomicose
O laser de CO₂ e o SmartPico (Nd:YAG 1064 nm) são recursos adjuvantes no tratamento da onicomicose, especialmente em casos refratários ao tratamento antifúngico convencional ou em pacientes com contraindicação ao uso sistêmico. O laser promove destruição térmica do fungo na lâmina ungueal e no leito ungueal, complementando a ação do antifúngico tópico ou oral. A associação entre laser e antifúngico tende a oferecer resultados superiores ao uso isolado de qualquer uma das estratégias. O protocolo habitual combina CO₂ e SmartPico em sessões com intervalo mínimo de duas semanas, totalizando cinco sessões como ponto de partida.
Como o Dr. Caio Formiga avalia e trata dermatofitose
A consulta começa pelo exame clínico detalhado das lesões com avaliação da localização, da extensão, do padrão morfológico e da história de tratamentos anteriores. O exame micológico direto com KOH é solicitado sempre que há dúvida diagnóstica ou quando a apresentação é atípica, para evitar o início de tratamento antifúngico em condições que não são micoses.
Nas onicomicoses, a escolha entre tratamento oral, tópico, laser ou combinação é definida pela extensão do acometimento ungueal, pelo número de unhas envolvidas e pelo perfil clínico do paciente. A adesão ao tratamento prolongado é discutida de forma direta, com orientações claras sobre o tempo esperado de recuperação e a importância de manter o tratamento mesmo após melhora visual da unha.
O paciente também é orientado sobre medidas de prevenção de recorrências: higiene dos pés, secagem adequada dos espaços interdigitais, uso de calçados ventilados, evitar ambientes coletivos descalço e troca regular de meias. Sem essas medidas, a reinfecção após o tratamento é frequente.